MERCADO Sensibilidade, perfil conciliador, habilidade de negociação e facilidade de delegar favorecem as mulheres
CARINE APRILE IERVESE
O que destaca a mulher no ambiente corporativo são algumas características específicas e (geralmente) só delas. “Elas têm o perfil mais conciliador, habilidade maior de negociação, tranquilidade em lidar com muitas coisas ao mesmo tempo, facilidade de delegar maior do que os homens e um jeito mais humanista”, destaca Andrea Veras, porta-voz da Great Place to Work, empresa especializada em ambiente de trabalho.
De acordo com Andrea, a união de todas essas características forma uma liderança muito bemsucedida. “Por isso estão ganhando mais espaço no mundo corporativo”, avalia. Um estudo, realizado anualmente pela organização, revela que o índice de confiança dos funcionários é maior nas empresas presididas por mulheres: 83%, enquanto que nas companhias lideradas por homens o percentual fica em 81%.
A análise mostra também que, apesar de todo o avanço da participação feminina no mercado de trabalho, ainda existem diferenças importantes entre homens e mulheres. “Atuando em uma mesma posição profissional, a mulher ganha menos, leva mais tempo para atingir cargos de liderança e dedica mais tempo ao estudo, formação e aprimoramento profissional”, ressalta a pesquisa.
Perseverança
Vanessa de Vasconcelos Byrne, 29 anos, ocupa o cargo de coordenadora de assepsia da filial de Camaçari da Ambev, onde 520 homens e 30 mulheres compõem o quadro de funcionários. “Aceitei o desafio e aprendi muito com eles. Nunca sofri discriminação, nem fui alvo de gracinhas. Pelo contrário, acabei conquistando o respeito e a confiança deles”, conta.
Vanessa explica que decidiu ter uma postura cautelosa e cuidadosa. “Procurava ser atenciosa e mostrar por que precisava de cada coisa que pedia. Percebi que comecei a ter o retorno disso. No entanto, essa sensibilidade não pode ser sinônimo de fraqueza, ainda mais numa fábrica com tantos homens”, avisa a coordenadora. A vida de Márcia Oliveira sempre foi rodeada por homens. “Desde os meus 14 anos, meu pai me levava para as reuniões do sindicato”, lembra ela, filha de José Eudes, fundador da CFC Progresso e membro da diretoria do Sindicato das Autoescolas e Centros de Formação de Condutores do Estado.
Hoje, aos 33 anos, ela é quem administra a empresa, no lugar do pai, e ocupa o cargo de vice-presidente do sindicato. “Passei por todas as etapas até me tornar a administradora da escola. Fui instrutora, cuidei da área administrativa e financeira e do relacionamento com o Detran. Aprendi tudo isso com o meu pai. Ele foi o meu mestre”, conta Márcia, que tem um irmão e uma irmã que também atuam com autoescola. De acordo com Márcia Oliveira, é preciso ter coragem para entrar num campo de atuação predominantemente masculino. “Tem que ser guerreira, porque alguns profissionais não acreditam na nossa competência”, avisa.
Capacitação
Para mostrar esse diferencial, Vanessa e Márcia investiram pesado em capacitação e qualificação profissional. “Me formei em contabilidade, mas não parei. Fiz vários cursos pelo Sebrae, Senai e OAB. Sempre tive sede de conhecimento, porque achar que as características
femininas são suficientes para se fixar no mercado é um engano. É preciso ter conhecimento de causa”, frisa Márcia. Já Vanessa organizou seu casamento entre um curso e outro. “Participei de um treinamento no Rio de Janeiro. Fiquei três meses lá e fechava tudo – bufê, vestido, etc. – por telefone. O curso teve um intervalo de dois meses, quando voltei para casar. Mas, em seguida, passei mais três meses em treinamento novamente no Rio de Janeiro”, lembra ela.
As duas dão um recado para as mulheres: “Trabalhar em um ambiente masculino não pode se tornar uma barreira para galgarmos nossos objetivos”, frisa Vanessa. “Dediquem-se a vocês, independentemente de ter um homem do lado. Todas as mulheres são capazes de provocar mudanças”, diz Márcia.
Fonte: Jornal A Tarde, publicada em 07 de março de 2010.